Fiado sem perder dinheiro: limite, prazo e a hora de parar
Fiado no caderno funciona até a terceira página. O que quebra não é o calote grande, é a soma de dez contas pequenas que ninguém somou.
Em cidade pequena, fiado não é escolha — é o que mantém o cliente. Quem corta o fiado perde para o mercado da esquina que não cortou.
O problema nunca é dar fiado. É dar sem limite, sem prazo e sem soma. O que quebra loja não é o calote de R$ 800 de um cliente; é a soma de trinta contas de R$ 60 que ninguém juntou num número só.
Os três números que faltam no caderno
1. Quanto cada cliente pode dever (limite). Sem limite definido, quem decide é a memória de quem está no caixa — e ela sempre decide "pode". Com limite, a conversa muda de "você pode levar?" para "seu limite é R$ 150 e você já tem R$ 120 em aberto".
Como definir: comece pelo que o cliente costuma gastar por semana. Um cliente de R$ 80 semanais com limite de R$ 150 tem folga de duas compras — e você nunca fica exposto a mais de duas semanas dele.
2. Até quando ele tem para pagar (prazo). Fiado sem prazo não vence nunca, e o que não vence nunca não é cobrado. O prazo mais comum é mensal, casado com o dia de pagamento da pessoa.
3. Quanto está em aberto no total. Esse é o número que ninguém tem. Some tudo que está fiado agora. Se for mais que o seu caixa de uma semana, você está financiando seus clientes com dinheiro que precisa para comprar mercadoria.
A conta que mostra o tamanho do risco
Fiado é capital de giro emprestado sem juros. O custo dele não é zero:
R$ 6.000 em aberto, girando a cada 30 dias
= R$ 6.000 permanentemente fora do caixa
Com esses R$ 6.000 você compraria mercadoria à vista com desconto, ou pagaria fornecedor sem atraso. É isso que o fiado custa quando todo mundo paga em dia — e aí ainda nem falamos de quem não paga.
Uma inadimplência de 5% sobre R$ 6.000 são R$ 300 por mês. Se sua margem de contribuição é 30%, você precisa vender R$ 1.000 a mais só para repor o que não entrou.
Quando bloquear
A regra mais útil é também a mais simples de explicar ao cliente: quem tem conta vencida não leva mais no fiado até acertar.
Ela funciona por três motivos:
- É automática, então não depende de quem está no caixa ter coragem de negar.
- É previsível: o cliente sabe a regra e pode se organizar.
- Ela para a sangria no começo. O cliente que deve R$ 60 vencidos e continua levando chega a R$ 400 em dois meses — e a dívida de R$ 400 é muito mais difícil de receber que a de R$ 60.
A hora de conversar é quando a conta vence, não quando ela fica grande. Uma mensagem no dia seguinte ao vencimento resolve a maioria dos casos — muita gente simplesmente esqueceu.
Quando aceitar que não vai receber
Em algum momento, uma conta vira perda. Fingir que ela ainda é um "recebível" distorce duas coisas:
- O limite do cliente, que continua travado por uma dívida que não vai entrar
- O seu resultado, que mostra um ativo que não existe
Dar baixa como perda é contabilidade correta, não desistência: a dívida não deixa de existir e você pode receber depois — mas o seu número passa a dizer a verdade.
⚠️ E uma coisa importante: perda com fiado é despesa, não é "venda que não aconteceu". A venda aconteceu, a mercadoria saiu, o custo foi pago. Lance como despesa no mês em que você reconhece a perda, senão o CMV do mês da venda fica certo e o resultado do ano fica errado.
O que não fazer
🔴 Cobrar juros sem combinar antes. Além de gerar briga, juros em venda a prazo para pessoa física têm regra — e improviso aqui costuma custar o cliente e a razão.
🔴 Dar fiado para quem você não sabe o nome. Parece óbvio, mas acontece no movimento. Fiado exige cadastro: nome, telefone e, de preferência, CPF.
🔴 Misturar o caderno do fiado com o caixa do dia. Fiado não é dinheiro que entrou. Se a venda fiada entra no fechamento do caixa como receita recebida, seu caixa "fecha" com dinheiro que não existe.
Fiado e delivery são coisas diferentes
Uma distinção que evita confusão: no balcão, você vê a pessoa e conhece o rosto. No pedido pelo aplicativo, não. Fiado remoto exige um vínculo mais forte — cadastro com documento, limite menor no começo, e histórico antes de aumentar.
E vale lembrar: quando o cliente paga em fiado, o pedido é como se fosse em dinheiro para efeito de repasse e comissão. A loja recebeu a venda no próprio caixa (ou receberá), então é a loja que assume o risco daquele crédito — não a plataforma.
No PedeBox o fiado tem cadastro por cliente com limite, prazo e bloqueio automático de quem tem conta vencida; o total em aberto aparece somado, e dar baixa como perda lança a despesa no DRE sozinho. ⚠️ A conta perdida continua consumindo o limite do cliente de propósito — ela não some do controle só porque virou despesa.